Em recente discurso, na cerimônia de transmissão de cargo na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República _ Brasília, 3 de janeiro de 2010, disse Maria do Rosário, a nova ministra-chefe:
Excerto _ “Esse início de 2011 ficará registrado na memória do povo brasileiro (...). Quanto ao tema do Direito à Verdade e à Memória, passados quase 50 anos do inicio do período de exceção no Brasil, é chegada a hora de dar seguimento ao processo de reconhecimento da responsabilidade do Estado por graves violações de Direitos Humanos, com vistas à sua não repetição, com ênfase no período 1964-1985, de forma a caracterizar uma consistente virada de página sobre esse momento da história do país. Devemos isso às famílias daqueles que foram mortos ou estão desaparecidos, devemos aos que viveram aquele período e empenharam suas vidas generosamente porque acreditavam na liberdade e na democracia. Eles nos trouxeram até aqui. Nesse sentido, faço um apelo à Câmara dos Deputados, poder de onde venho, e ao Senado Federal, com os quais quero manter uma relação de muita proximidade e respeito. Que façamos um bom e democrático debate e possamos aprovar o Projeto de Lei que cria a Comissão da Verdade. Faço questão de reforçar que não queremos aqui fazer um embate entre parlamentares contra ou a favor da medida, mas resgatar a nossa história e contá-la de forma completa. Somente conhecendo os fatos e reconhecendo os erros que conseguiremos escrever novas e melhores páginas da nossa história”.
Resgatar a história e contá-la de forma completa, conforme ressaltou a ministra em seu discurso, será extremamente benéfico ao povo brasileiro, que conhece bem pouco a história do país daqueles anos. O projeto de criação da Comissão da Verdade, entretanto, determina como período de apuração de violações aos direitos humanos 1946-1988. Que razão levou a ministra a enfatizar, em seu discurso o período 1964-1985 e, mesmo enfatizando apenas este período, que razão a levou a deixar explícita a disposição de se apurar apenas violações cometidas pelos agentes do Estado?
A imensa maioria do povo brasileiro, como a ministra, reconhece o regime iniciado em 1964 como de exceção, todavia, então, não optou pela luta armada. Na verdade, essa maioria apoiou o Estado na neutralização da esquerda revolucionária e, ao mesmo tempo, os segmentos políticos e sociais que buscavam a redemocratização pela via legal. O povo desejava uma neutralização dos grupos armados, que via como um entrave à redemocratização do país. Diz-se que os grupos que se batiam com o Estado estavam “em busca da liberdade e da democracia”. Verdade? A maioria dos que participaram da luta armada, alguns dos quais encontram-se, hoje, batendo-se democraticamente no parlamento, reconheceu que o propósito “desta busca por liberdade e democracia” era implantar no Brasil uma ditadura nos moldes da soviética, chinesa e cubana. Marighella, por exemplo, ícone da esquerda radical que Lula elevou à categoria de herói nacional, assim escreveu em seu Manual do Guerrilheiro Urbano: “O guerrilheiro urbano tem que se fazer mais agressivo e violento, girando em torno da sabotagem, terrorismo, expropriações, assaltos, seqüestros e execuções”. A minoria radical na qual se enquadra este ícone constituía-se de militantes treinados nas academias de guerrilhas de Cuba, Coréia do Norte, Alemanha Oriental, China e União Soviética. Entre outros tantos atos planejados, seqüestrou autoridades e aviões comerciais, praticou terrorismo, assaltos, guerrilha urbana, rural e assassinatos de cunho político. Seu objetivo era desmoralizar as instituições, enfraquecê-las, assumir o poder e implantar no país uma “república popular democrática”.
Daniel Aarão Reis Filho, ex-membro da direção do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8), codinome Faustino, era um dos militantes treinados (dois anos em Cuba _ 1970/1971) para ações de guerrilha. Encontrava-se Daniel entre os 40 militantes banidos em 15 de junho 1970 para a Argélia em troca da liberdade do embaixador Von Holleben, da Alemanha, que havia sido seqüestrado por um pool de Organizações da esquerda armada. Anos depois (setembro de 2001), enquanto professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense, Daniel deu em a seguinte entrevista, que foi publicada no jornal O Globo em 23 de setembro de 2001: “As ações armadas da esquerda brasileira não devem ser mitificadas. Nem para um lado nem para o outro. Eu não compartilho da lenda de que no final dos anos 60 e início dos 70 (inclusive eu) fomos o braço armado de uma resistência democrática. Acho isso um mito surgido durante a campanha da Anistia. Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento da resistência democrática”. Numa outra entrevista ao Globo, em 29 de março de 2004, disse Daniel Aarão Reis Filho: “Falava-se em cortar cabeças; essas palavras não eram metáforas. Se as esquerdas tomassem o poder haveria, provavelmente, a resistência das direitas e poderia acontecer um confronto de grandes proporções no Brasil. Pior, haveria o que há sempre nesses processos e no coroamento deles: fuzilamentos e cabeças cortadas (...). As esquerdas radicais se lançaram na luta contra a ditadura não porque a gente queria uma democracia, mas para instaurar o socialismo no país, por meio de uma ditadura revolucionária, como existia na China e em Cuba. Mas, evidentemente, elas falavam em resistência, palavra muito mais simpática, mobilizadora, aglutinadora. Isso é um ensinamento que vem dos clássicos sobre a guerra”.
Pois bem, em agosto de 1979, todos os revolucionários, sem exceção, foram anistiados pela “Ditadura Militar”, que combatiam.
Passados 31 anos e completado o período de oito anos do governo Lula (um dos anistiados _ Lula não foi cassado e nem condenado, foi anistiado por quê?), há um batalhão deles que, em conseqüência de decisão de uma Comissão de Anistia criada em agosto de 2001 pelo governo Itamar Franco, recebe do Estado indenizações que, considerando-se somente em atrasados, ultrapassam R$ 1,44 bilhão. A essas indenizações pagas pelo Estado, deferidas em 5.540 processos aprovados pela Comissão de Anistia, há que se somar ainda o pagamento de pensões que, por enquanto, chega a 267 milhões por ano, aí incluída a pensão de R$ 4.294,12 concedida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, enquanto líder sindical, esteve preso durante 31 dias! Ressalte-se que em 2003, Lula assinou o Decreto 4.897, publicado no Diário Oficial de 26 de novembro daquele ano, isentando os benefícios aos pensionistas da “Revolução de 64” do Imposto de Renda. Considere-se, ainda, os reparos financeiros a parentes de mortos e desaparecidos políticos em “dependências policiais ou assemelhadas” ou em “lugares sujeitos à administração militar”, durante o período de luta armada, conforme definido por uma Comissão de Desaparecidos Políticos, criada em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso.
A família do ex-capitão Carlos Lamarca, por exemplo, recebe o tal reparo _ Lamarca foi morto no sertão baiano (sua viúva, então, já recebia do Exército uma pensão de coronel). A esposa de Carlos Marighela, Clara Charf, da mesma forma, também foi indenizada _ Carlos Marighela foi morto num tiroteio nas ruas de São Paulo, depois de ser traído pelos seus camaradas do Convento dos Dominicanos. A viúva de Luiz Carlos Prestes, que teve a patente de capitão cassada em 1936 por ter liderado a Intentona Comunista, também foi indenizada pela Comissão de Anistia _ ela recebe uma pensão equivalente ao posto de General de Brigada, além de ter recebido R$ 180 mil de atrasados. Pergunta-se: O que é da indenização às famílias dos 33 militares assassinados durante a Intentona comandada por Prestes? Na verdade, as famílias destes mortos jamais exigiram ou reivindicaram nada, nem mesmo um mínimo de coerência. Excepcional é o caso do padre português Alípio Cristiano de Freitas, membro da Comissão Militar e da Direção Nacional da Ação Popular (AP), que em 1970 fundou o Partido Revolucionário dos Trabalhadores. Padre Alípio foi mentor intelectual do atentado ocorrido no Aeroporto dos Guararapes, em Recife, em 25 de julho de 1966, no qual foram assassinados o jornalista Edson Regis de Carvalho e o almirante Nelson Gomes Fernandes e feridas 13 pessoas, entre as quais o, então, tenente-coronel Sylvio Ferreira da Silva, que sofreu amputação traumática dos dedos da mão esquerda. Se já não morreu, o padre reside atualmente em Lisboa; foi para lá imediatamente após ter recebido, em conseqüência da decisão da Comissão de Anistia, uma indenização de R$ 1,09 milhão. O executor do atentado, Raimundo Gonçalves Figueiredo (o Raimundinho), militante da AP, foi morto pela Polícia em Recife (27 de abril de 1971); sua família também foi indenizada. Os familiares dos dois mortos e dos 13 feridos nunca receberam um tostão.
Na lista dos beneficiários de indenizações e pensões pagas pelo Estado encontram-se jornalistas do porte de Carlos Heitor Cony, ao qual foi concedida a quantia de R$ 1,4 milhão de indenização e mais R$ 19 mil mensais de pensão vitalícia, e Helio Fernandes, aquinhoado com uma indenização de R$ 1,4 milhão e uma pensão mensal vitalícia de R$ 14,7 mil. Certa vez, perguntado sobre a moralidade do fato julgado, em sua defesa disse Carlos Heitor Cony que esteve preso oito vezes e que “foi obrigado” a ir viver em Cuba. A Jose Dirceu (o “comandante Daniel”), o Estado pagou apenas a irrisória quantia de R$ 59,4 mil, embora tenha estado também em Cuba, onde recebeu formação superior em guerrilha. É de causar indignação que a família do soldado Mario Kosel Filho, morto enquanto sentinela do Quartel-General do Exército, no Ibirapuera, em conseqüência da explosão de uma perua carregada de dinamite, soldado que o Exército promoveu post-morten a terceiro sargento em novembro de 2004, ainda aguarde, mais de 42 anos depois do acontecimento, pelo dia em que começará a receber uma pensão de R$ 330, que lhe foi concedida por projeto de lei. Do ato em que morreu o soldado participaram dez militantes da Vanguarda Popular Revolucionária, entre os quais Diógenes José Carvalho de Oliveira, o Diógenes do PT, também treinado em Cuba. Diógenes, em 12 de outubro de 1968, havia participado do “justiçamento” do capitão do Exército dos EUA Charles Rodney Chandler, aluno bolsista da USP, que foi assassinado na frente de sua mulher e dos quatro filhos. Ladislas Dowbor, hoje professor de Economia da PUC/SP e João Carlos Kfouri Quartim de Moraes, professor na Unicamp, participaram do Tribunal Revolucionário que condenou Chandler. Ladislas Dowbor, já como membro da direção da VPR, também foi coordenador do seqüestro do Cônsul do Japão em São Paulo e Quartim de Moraes participou da ação que o assassinou. Ambos são pensionistas do Estado ao lado de Diógenes do PT.
Parece, uma indústria foi montada para beneficiar militantes da esquerda que estavam em atividade entre 1964-1985 _ R$ 4 bilhões em indenizações foram, até o presente, pagos pelo Estado às “vitimas da repressão”. É um escândalo o fato de ex-presidentes, senadores, governadores, ministros, parlamentares, entre milhares de outros ativistas (e não ativistas) da época, inclusos inúmeros jornalistas e intelectuais ainda hoje em atividade, receberem uma “bolsa ditadura”. Pagaria ou apagaria este dinheiro qualquer chaga moral e cívica? Redimiria culpas, injustiças e equívocos, fossem à esquerda ou à direita? Diz-se que as “organizações revolucionarias” encontravam-se a serviço de um ideal político; seria diferente com os seus contrários?
As Comissões que distribuíram indenizações e pensões à esquerda revolucionária continuam funcionando (parece, não concluíram ainda suas tarefas). Muitos bolsistas da “ditadura” exercem, hoje, cargos nos poderes executivo, Legislativo e Judiciário. Parece, uma Comissão da Verdade, nesta conjuntura, corre o risco de acabar escrevendo simplesmente uma “história oficial”. Haveria a história de ser colocado sob patrulhamento ideológico? Há, no Brasil, cisão social remanescente do regime militar? Que interesses há a motivar um retratamento? Os que estavam no poder entre 1964 e 1984 cometeram erros públicos e notórios. É fácil falar sobre eles. Difícil e arriscado é falar de erros que cometem hoje os que se encontram no poder!