quinta-feira, 14 de abril de 2011

Disparada

Prepare o seu coração, p'ras coisas que eu vou contar, eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão, e posso não lhe agradar; aprendi a dizer não (...), mas o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo, e nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando até que um dia acordei; então não pude seguir valente em lugar tenente e dono de gado e gente, porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente (...). Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei, não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse, que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu, querer ir mais longe do que eu (...).

O ferro em brasa, com as iniciais do dono do rebanho, queima o couro da rês para que todos saibam a quem ela pertence. Dos touros são retirados os culhões e eles passam à categoria de bois; torná-los mansos e engordá-los rapidamente é o objetivo (de norte a sul do país, a marcação e a castração do gado são eventos importantes na cultura e na tradição do Brasil fazendeiro). Só que gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente.

Indivíduos vem sendo marcados e castrados no mundo político brasileiro, há tempo. Ideólogos de plantão de ontem e de hoje respondem por esse crime. As marcas e a castração não são facilmente perceptíveis. Todavia, ao abrirem suas bocas em apoio cego à dominação, seja ela intelectual, cultural, moral ou religiosa, as marcas e a castração aparecem. Sem opinião ideológica formada, um contingente enorme de indiviuos, pouco a pouco, acaba por permitir ser marcado e castrado em sua mente e em sua alma e, assim marcado e castrado, acaba esquecendo os diversos porquês necessários à integridade individual, passando a acreditar na história contada pelo vitorioso da guerra cultural, independentemente de qualquer ideologia que o motive.

A cada geração a ignorância vem se acercando de forças para atuar no mundo, impedindo as pessoas de enxergarem além daquilo que deseja impeli-las a enxergar. Quem ousa reagir é castrado e, por via de conseqüência, não deixa descendência. O rebanho segue, pois, engordando, pronto para o abate. Até quando?

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Comissão da Reforma Política do Senado conclui seu relatório

A Comissão da Reforma Política do Senado Federal está por apresentar o seu relatório conclusivo. Como já era esperado, não houve consenso, encerrando o relatório apenas sugestões pontuais dos parlamentares. “Não há brasileiro que não queira a reforma política. Agora, cada um tem a sua e essa é a dificuldade”, afirmou o presidente da Comissão. A congênere da Câmara ainda dispõe de 180 dias para apresentar um relatório; aí também, as dificuldades, pelas mesmas razões, não serão menores.

O financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais foi o único tema, entre os arrolados pela comissão do Senado, que apresentou resistência nula; no relatório, todavia, provavelmente pela polêmica que geraria, não haverá uma explicitação sobre como será feito, qual será o custo total, quem será o administrador do fundo financiador, quais os critérios de partilha dos recursos públicos e como será feito o controle de sua aplicação. Cem em cada cem candidatos a postos eletivos querem o financiamento público para suas campanhas, porém não querem estar impedidos de utilizar, paralelamente, recursos privados. Pelo andar da carruagem, a exclusividade do financiamento acabará ficando apenas no discurso interessado de quem pretende ignorar um comprometimento maior com o pleito, hipótese que, se consumada, levará recursos públicos e privados a concorrerem no mercado de compra de votos, um absurdo que precisa ser extirpado da vida política brasileira.

A bem da verdade, a legislação vigente já patrocina o financiamento público de campanha, seja por intermédio do Fundo Partidário, mecanismo de financiamento das legendas habilitadas junto à Justiça Eleitoral, seja pela cobertura pelo poder público dos custos da propaganda eleitoral obrigatória nos veículos de comunicação, todavia a escala deste custeio não é satisfatória para a maioria da classe política. Afinal, até quando a sociedade brasileira permitirá que seus representantes e os representantes de seus Estados continuem tendo o poder de colocar seus interesses e o de seus partidos acima dos interesses da nação?

A modernização da estrutura política nacional é uma exigência da cidadania; mudá-la, entretanto, exige uma renúncia que os políticos, em sua grande maioria, não estão dispostos a fazer. É possível inferir que se a sociedade brasileira não se manifestar, pressionado seus representantes e o de seus Estados, não haverá reforma alguma que de fato interesse ao povo. Sem desvincular o modelo a ser proposto das conveniências partidárias e da dos indivíduos que o propõe, o Brasil, por certo, acabará tendo exclusivamente uma atualização de instituições, há muito, ultrapassadas; retrocesso político, portanto!