Quando a imprensa repercutia a idéia de um terceiro mandato para Lula, a despeito da restrição constitucional a este respeito, recebi este texto de meu amigo Raimundo Sérgio Carneiro, engenheiro e professor:
Sim, mudei de idéia. Agora acho que Lula deve disputar, e se possível ganhar, um terceiro mandato; e mais, acho que estou em boa companhia. Há tempos o escritor Jorge Amado escreveu um artigo no Folha de São Paulo dizendo que não entendia o porquê de não se reeleger um dirigente que esteja fazendo um bom governo. Existem dois senões no artigo de Jorge Amado: primeiro ele estava defendendo a reeleição de Antonio Carlos Magalhães, que evidentemente não se compara com Lula; e depois, a defesa do escritor tinha muito do ranço do ex-stalinista que ele foi; porém com Lula é diferente; ele é, para o bem e para o mal, um novo Getulio, o único capaz de conduzir o Brasil nessa transição histórica de um país emergente para um país desenvolvido.
Vivemos uma época excepcional: as exportações estão próximas de 200 milhões de dólares; a inflação está sob controle; as reservas estão altas; o desemprego diminui; a paz social reina; os pobres têm comida na mesa e os ricos estão contentes e seguros; novos investimentos garantirão o crescimento sustentado e o Brasil está apto a assumir novas responsabilidades com as descobertas de reservas de bilhões de barris de petróleo na plataforma submarina; aliás, essas reservas vão despertar cobiças internacionais (ou alguém acha que a guerra do Iraque foi porque Saddam tinha armas de destruição em massa?) e para enfrentarmos essa cobiça necessitamos de um poder dissuasório muito maior do que o nosso poder atual, inclusive com a posse de armas nucleares, por que não? É bom notar que o país do BRIC (Brasil. Rússia, Índia e China) que não tem bomba atômica é o Brasil. Por essas e por outras é que precisamos de um novo Getulio e esse Getulio é Lula. A grande diferença de Getulio para Lula é no campo da solidariedade pessoal; enquanto Getulio caiu por ser solidário a Gregório Fortunato, Lula vê um a um dos seus amigos caírem em desgraça sem fazer nada. Mas isso Trotsky já explicou muito bem no livro “A Nossa Moral e a Deles”.
Então, assim respondi a Raimundo Sérgio:
Caríssimo Sergio,
Ensinou Maquiavel: A política, como arte de adaptar os meios aos fins, não é um universo dos bons sentimentos ou lugar próprio da moral (um âmbito de fins). Tendo em conta os ensinamentos do ilustre pensador, Zé Dirceu, líder maior do Campo Majoritário, demonstrou, de maneira inequívoca, que a intenção de seu grupo é a de continuar fazendo valer em sua ação política qualquer meio para garantir o poder. Haveria por que ou para que cumprir a lei? Em política, afinal, Maquiavel por testemunha, não se cometem crimes. Há de se pensar nesta moral _ a deles.
Pergunto-lhe Sergio: Como se forma o cidadão? Haveria alguma diferença se a pergunta fosse: Como se forma o ser humano? Há como se pensar o humano fora da comunidade? Considerando-se que sair da comunidade, indubitavelmente, significa não ser, que perspectiva poderia haver para um ser humano sob uma moral que desconhece a lei?
Caríssimo Sérgio, se em política fosse possível considerar uma ética em que se tratando de política não se rouba, expropria-se; não se mata, seqüestra, lincha ou expulsa, simplesmente promove-se justiçamentos democráticos; parece, estaria justificado o terrorismo. Pergunto-lhe: Teria alguém direito especial de assim agir, em qualquer tempo, para mudar a sociedade e o mundo?
Veja caríssimo, a mesma imprensa que repercutiu a idéia de um terceiro mandato para Lula, que, de alguma forma, mudou as suas próprias idéias, repercutiu também que a complacência moral com a “informalidade” e o desrespeito à lei ou, mais propriamente, o respeito apenas conveniente à lei, já produziu em outras plagas exemplos tão ou mais patéticos que o exemplo desses novos Getulhismos; é o caso, por exemplo, das FARC colombianas; do Partidão mexicano; dos melancólicos ex-militantes do MIR chileno e os da guerrilha salvadorenha. Aditas ao narcotráfico, as FARC, particularmente, hoje só sobrevivem do próprio narcotráfico e a maioria dos outros grupos estão reduzidos, hoje, a categoria de bandidos comuns. A guerra acabou, mas, como já disse, um dia, Jorge Semprún, todos eles continuaram, ainda assim, o seu delirante combate.
Certa vez, Celso Furtado, comparou a geração dos Genoinos, Zé Dirceus, Dilmas, Gushikens, com a geração dos “tenentes” dos anos 20 e 30, encabeçada por Luiz Carlos Prestes, Siqueira Campos e Juarez Távora. Ambas estas gerações eram compostas de jovens da classe média com uma idéia em suas cabeças e armas em suas mãos, em ambas, alguns jovens militantes foram torturados e vários deram a vida na luta contra oligarquias repressivas; diferentes caminhos, entretanto, abriram-se-lhes para o futuro; alguns dos militantes destas gerações converteram-se sinceramente à democracia, todavia, não parece ser esta a disposição da maioria dos Genoínos, Zé Dirceus, Dilmas e Gushikens e, particularmente, pela mudança de idéia, dos Raimundos Sérgios Carneiros. Quem, afinal, são os personagens desta peça grega? Kerenskis brasileiros?
Lembrando que Aleksander Kerenski chefiou o governo provisório instalado na Rússia em julho de 1917 e que seu governo foi uma espécie de interinidade preparatória para as reformas propostas pela revolução, precedendo a tomada definitiva do poder por Lênin e Trotsky em novembro daquele ano, pergunto: O que pretende Sérgio Carneiro? Introduzir no poder um novo Stalin que os sucedeu?
Não se espere que a democracia resolva conflitos. Ela na verdade os cultiva!
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