De Mikhail Bakunin, anarquista russo do século XIX: “Sob qualquer ângulo em que se esteja para considerar a questão da política chega-se, sempre, a um mesmo e execrável resultado. O governo da imensa maioria das massas populares representa-se por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, mas de antigos operários, que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado. Assim, não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.
Durante vinte e cinco anos o PT implementou uma arquitetura “muito bem planejada” para a tomada do poder. Foi pela “via democrática” que chegou ao poder, não há dúvida, mas sob a perspectiva de que os fins justificam os meios. Na verdade, direção e militância de tudo fizeram para fortalecer o partido, tanto política como economicamente: Na medida em que avançaram as CPIs, não há muito tempo, foram postos a público o acúmulo de crimes eleitorais e financeiros praticados _ formação de quadrilha; tráfico de influência; evasão de divisas; sonegação fiscal; lavagem de dinheiro; assassinato; compra de deputados. A principal força por trás desta estratégia era o grupo bolchevique comandado por Zé Dirceu.
Tarso Genro, então ministro, hoje governador eleito do Rio Grande do Sul, quando na interinidade do comando do PT pós-escândalos, pretendeu re-fundar o Partido. A reabilitação, todavia, teve por óbice Zé Dirceu. Em uma entrevista ao Estadão, Tarso disse que Dirceu deveria considerar sua exclusão da chapa concorrente ao novo comando como um gesto político de quem reconhece que a antiga maioria esgotara-se e, portanto, que era preciso escolher um novo grupo dirigente. Como era de se esperar, Dirceu ignorou a sugestão e quem acabou se retirando foi Tarso. Política, como arte de adaptar os meios aos fins, conforme ensinou Maquiavel, não é um universo dos bons sentimentos ou lugar próprio da moral comum (um âmbito de fins). Zé Dirceu, que sempre teve em alta conta os ensinamentos do ilustre pensador, com seu gesto demonstrou a intenção de continuar fazendo valer em sua ação política qualquer meio para garantir o poder. Assim, no que se pode considerar uma das mais interessantes peças da “política partidária brasileira”, com seu gesto, Dirceu trouxe para o Alvorada a essência do teatro grego, onde a catástase constitui a parte final, quando as peripécias se adensam e os fatos constituem a catástrofe.
Pois bem, quem já o ouviu falar ou qualquer outro petista, seja do grupo de Dirceu, seja de quaisquer outros grupos que disputam ou já disputaram o comando do PT, em crimes do partido? Ora, crime é coisa de criminosos. Entre políticos, Maquiavel por testemunha, comete-se erros. Crime dá cadeia. Quando se comete erros pede-se desculpas e se trabalha para a correção de rumos. Há de se pensar que com um pouco mais dessa moral Dircélica as lideranças do partido qualificarão até o assassinato de Celso Daniel como erro eventual. De fato, um erro deplorável. Na perspectiva ética do bolchevismo petista, militantes não roubam, expropriam; não matam, não seqüestram, não lincham, não expulsam antigos companheiros de luta, simplesmente, promovem justiçamentos democráticos.
De fato, sob que ética encontram-se as ações do atual PT? Quem o comanda de fato? Há de observar que o PT tem imprimido às ações do partdo uma ética que implica numa moral típica de situações que só se justificam em situações de exceção, de revolução ou de guerra, a mesma com a qual alguns tentam justificar o terrorismo. Teria o grupo dominante no atual PT, bolcheviques auto-proclamados defensores dos mais fracos e oprimidos, direitos especiais de agir, em qualquer tempo, dentro ou fora da lei, para mudar a sociedade e o mundo?
Entre as muitas possíveis análises sobre as crises políticas pelas quais passou o Brasil, que tiveram por raiz a corrupção, encontra-se uma (oportuna ao tema) que fez Reinaldo Lobo (07/08/05 - O Estado de São Paulo): Pensadores da ala “cubana” do PT elaboraram a seguinte tese - Corrupção não é um problema moral, mas um erro político. Ora, as conseqüências desta “ética tão especial” aparecem hoje no congresso nacional em forma de descrédito público na instituição e no governo. É enorme a desilusão dos brasileiros. O próprio partido, outrora moderador, está ameaçado de ser varrido da cena política brasileira. Subordinar a moral à estratégia política foi o grande equívoco da cúpula do PT e do governo. Considere-se que esta mesma complacência moral com a “informalidade” nos negócios públicos e privados já produziu em outras plagas exemplos tão ou mais patéticos que o exemplo brasileiro. É o caso das FARC colombianas. É o caso do Partidão mexicano. As FARC, por exemplo, aditas ao narcotráfico, hoje, só sobrevivem dele. Na verdade, se pode incluir na lista de exemplos inúmeros outros episódios, recentes e passados, como o dos melancólicos ex-militantes do MIR chileno e o da guerrilha salvadorenha, por exemplo, reduzidos ambos a categoria de bandidos comuns. Como disse Jorge Semprún, a guerra acabou, mas eles continuam seu combate delirante.
Celso Furtado, certa vez, comparou a geração dos Genoíno, Zé Dirceu, Dilma, Gushiken e outros, com a geração dos “tenentes” dos anos 20 e 30, encabeçada por Luiz Carlos Prestes, Siqueira Campos e Juarez Távora. Ambas estas gerações eram compostas de jovens da classe média com uma idéia em suas cabeças e armas em suas mãos. Em ambas estas gerações alguns desses jovens foram torturados, vários deram a vida na luta contra as oligarquias repressivas, mas diferentes caminhos se abriram para seu futuro. Alguns se converteram sinceramente à democracia. Outros mantiveram o perfil guerrilheiro.
O célebre social democrata Robert Michels enunciou a lei de bronze dos partidos: Toda agremiação política nasce da mobilização de massas e tende a se burocratizar ao longo do tempo degenerando em organização de funcionários, na maioria das vezes medíocres ou corruptos. Não foi diferente com PT de Zé Dirceu. Menos do que propriamente maquiavelismo Zé Dirceu introduziu no Partido o uso do imediatismo e de uma estranha dialética: Combater o fisiologismo com fisiologismo. Lula, que nunca foi guerrilheiro, mas um herói típico da “luta democrática”, sobretudo da luta socialista, cometeu, nestes termos, erros fundamentais. Se não se pode imputar a ele os crimes de seu partido, há que o considerar no mínimo um altista que se deslumbrou com o poder e pelo poder se fez refém de métodos impróprios à magistratura traindo boa parte de seu imenso eleitorado. Faça o que faça, provavelmente, passará a historia como um triste Lech Walesa.
O PT, agora, apresenta Dilma Roussef à presidência da República (ela tem por padrinho Luis Inácio “Lula” da Silva). Ora, Lula, de alguma forma, controlava o PT. Dilma é controlada pelo grupo bolchevique que controla o PT. Assim, apresenta-se o Campo Majoritário, comandado por Zé Dirceu, ao poder, empunhando uma miríade de eufemismos para “princípios humanistas do socialismo”, empregando todo tipo de meios para conquistar e se manter no poder. Lula, entregue a faixa, tentará, como já vem tentando, comparar-se a nomes ilustres da Suprema Magistratura da Nação, a Getúlio, Juscelino Kubitschek, Jango. Na ocasião das CPI’s, pediu desculpas à nação pelos erros de seu partido, afirmando, entretanto, que não iria cometer o mesmo desatino de Getúlio, mas como Juscelino, teria paciência, paciência e paciência! (desculpem Lula pelo se desconhecimento da história de Juscelino que, segundo suas próprias palavras, “era impaciente e nunca teve compromisso com o erro”.
Hélio Bicudo, um dos personagens históricos do PT, declarou a época dos escândalos: “Lula é um mestre na arte de esconder sujeira debaixo do tapete”. Afinal, quem são os personagens desta peça grega que produziu e continua produzindo o PT? Quem é Dilma, uma Kerenskis brasileira? _ Aleksander Kerenski chefiou o governo provisório instalado na Rússia em julho de 1917, este governo, uma espécie de interinidade preparatória para as reformas propostas pela revolução, precedeu a tomada definitiva do poder por Lênin e Trotsky em novembro do mesmo ano _ e quem é Zé Dirceu nesta produção?, um novo Stalin que os sucedeu?
A bem da verdade, não acredito em ameaça de stalinização do governo de nosso país, entretanto, parece não haver dúvidas que o Campo Majoritário pretenda utilizar-se das economias do sistema para mudar, segundo suas próprias concepções, o sistema brasileiro. Para tanto, pelo menos é o que parece, vai continuar tentando viabilizar, a qualquer preço, sua permanência no poder por pelo menos vinte anos. Como no Brasil basta um marqueteiro de talento para fazer um presidente, este é um risco iminente, que os cidadãos brasileiros precisam e devem combater!
Sou de acordo. Temo, porem, o que poderia vir de uma administracao Dilma, que nao temos confianca em sua base. Nao podemos ignorar a historia das pessoas!
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