(visite ou revisite Projeto FX2, Dez 2010, neste blog)
Os doze Mirage 2000 de segunda mão, comprados como solução-tampão para compor a primeira linha de defesa do país, provavelmente serão aposentados em 2014, como foram, em 2005, os Mirage III, que estes Mirage 2000 substituíram. As três aeronaves _ Gripen, SuperHornet e Rafale _ selionadas na licitação FX2 continuam postas à escolha do governo, agora, sob a presidente Dilma Roussef, que tem, portanto, bem menos tempo que seus antecessores para decidir. Com permanência de Jobim na Defesa, dava-se como certa uma decisão pró Rafale, o concorrente francês; tem-se notícia, entretanto, que a presidente, depois de reuniões com Jobim e Saito, decidiu adiar, mais uma vez, uma decisão sobre o projeto: A presidente pretende reavaliar as ofertas, buscando garantias reais para questões sensíveis, principalmente no que se refere à transferência de tecnologia.
Jobim havia encaminhado à presidente uma versão resumida pelo Ministério da Defesa, de quarenta páginas, na qual o Rafale aparece como a melhor opção, entretanto, numa reunião com o Comandante da Aeronáutica, Tenente brigadeiro Saito, ela recebeu dele o parecer original emitido pela FAB _ um calhamaço de oitocentas páginas e mais de oito mil anexos, no qual a primeira opção é o Gripen, seguido do SuperHornet e do Rafale, nesta ordem; segundo o parecer, as três ofertas têm pontos fortes e fracos _ a da Dassault (fornecedora do Rafale) garante transferência de tecnologia, mas carrega um preço demasiadamente alto; considerados preço e transferência de tecnologia, a melhor oferta é a da Saab (fornecedora do Gripen), porém a Suécia, em termos geopolíticos, tem a pior relação estratégica entre os países concorrentes; considerando-se apenas o equipamento, é a oferta da Boing (fornecedora do SuperHornet) a preferida, entretanto, deixa a desejar quanto ao que realmente interessa _ transferência de tecnologia: é essencial que o processo resulte em conhecimento e incentivo para a indústria de defesa nacional.
Pesam no negócio, como não poderia deixar de ser, considerações geopolíticas importantes:
Lula construiu uma forte ligação com o presidente francês Nicolas Sarkozy e assinou um acordo estratégico de defesa com a França; para a Dassault, sua principal indústria aeronáutica, conseguir a venda dos Rafale é especialmente importante, pois seria a primeira encomenda de exportação desses caças, o que aliviaria a pressão sobre a companhia francesa, que busca repetir, com o caça, o sucesso da geração anterior de seus aviões militares, os Mirage.
Durante o governo Lula as relações bilaterais entre Brasília e Washington deterioraram-se; a tentativa mal sucedida do ex-presidente de mediar uma disputa internacional sobre o programa nuclear iraniano resultaram em um esfriamento dos laços entre Brasil e EUA, chegando a afetar o comércio bilateral entre os dois países. Dilma pretende melhorar essas relações, afinal os EUA são um aliado comercial importante neste momento de crise financeira mundial. Na última segunda-feira, a presidente chegou a perguntar ao senador democrata John McCain, membro do Comitê de Serviços Armados do Senado dos EUA, que tem jurisdição sobre assuntos aeronáuticos, e a seu colega republicano John Barrasso, se o Congresso dos EUA daria uma garantia formal de transferência de tecnologia completa e sem restrições para a oferta americana, caso o governo do Brasil se decidisse pelo F-18; a Boeing e diversas autoridades dos EUA, particularmente o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, já haviam dado essa garantia, todavia Dilma deixou bem claro que tanto o presidente dos Estados Unidos quanto o Congresso americano precisariam corroborá-la.
A Suécia, entre os países concorrentes, é o que, em termos geopolíticos, apresenta a relação estratégica menos prestigiosa, todavia o Gripen é a plataforma que melhor atenderia o Brasil no que diz respeito à tecnologia, afinal Brasil e Suécia desenvolveriam juntos o projeto, portanto, é a oferta sueca que a longo prazo levaria o Brasil e sua indústria de defesa a se colocarem melhor em termos geopolíticos.
Ora, dê uma aeronave a um piloto de caça e ele a transformará numa aeronave de caça. Inclua-a num sistema de armas e ele a fará funcionar. No recente exercício militar _ Cruzex _ novembro de 2010, as versões modernizadas do F-5, aviões da década de 1970, que foram alvo de um upgrade tecnológico brasileiro, derrubaram, na simulação, o visitante francês Dassault RAFALE, ironicamente, o “preferido” do ministro Jobim (e do governo que terminou em 31 de dezembro passado). O que fizeram os brasileiros com as velhas células dos anos 70 para colocá-las em condições de vencer aeronaves de ponta do século XXI?
Parece, o que o Brasil precisa é de informação _ não é a plataforma, mas o conhecimento possível de se extrair dela o que realmente interessa. Mais importante, ainda, é desenvolver a capacidade, de quem é levado a conhecer, de multiplicar o conhecimento! A decisão de Dilma Rousseff de adiar uma decisão sobre o projeto FX2, nestes termos, é acertada _ talvez, ao atravessar a questão, o Brasil construa uma nova arquitetura, mais independente, menos custosa e mais duradoura para a sua defesa. Espera-se, todavia, que seja breve o período de reflexão, afinal 2014 está bem aí!
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