Há muito o Brasil precisa aumentar e melhorar a sua infra-estrutura aeronáutica, todavia não há progressos visíveis e se desconhece a existência de um plano consistente para tanto. É fato que, no que diz respeito à segurança, por exemplo, houve progressos; há dez anos a taxa de acidentes era bem mais alta que a média global. Que pese o fato de o Brasil ter sido o país que, na América Latina, teve o maior e mais rápido crescimento econômico nos últimos anos, entretanto, o estado da infra-estrutura de seu setor aéreo é, ainda, inadequado à demanda. Por conta do crescimento econômico, a demanda explodiu e treze dos vinte principais aeroportos brasileiros ainda não têm como acomodá-la em seus terminais. Ora, aviação civil é um negócio extremamente dinâmico. Investimentos regulares são impositivos.
Entre todos os aeroportos brasileiros, Congonhas é, hoje, o mais importante. Entretanto, é especialmente crítica a situação deste aeródromo, quanto a segurança de vôo que oferece, por exemplo. Há de se lembrar que até meados dos anos noventa as maiores aeronaves que aí operavam eram ELECTRAS. Hoje aeronaves de grande porte operam em Congonhas, que se tornou o maior ponto brasileiro de distribuição de vôos (hub) internacionais. Durante décadas (a época dos Electras) raramente a segurança de vôo neste aeródromo foi questionada. Todavia, desde que essas aeronaves foram “aposentadas” e substituídas por aeronaves de maior porte, logo se revelaram inúmeros problemas. No princípio, somente pilotos mais experientes comandavam as novas aeronaves (mais pesadas) na Ponte Aérea. A operação de equipamentos mais pesados, porém, acabou por ser “desmistificada” e equipamentos ainda mais pesados continuaram a ser homologados para operação neste aeródromo.
Recordo que, então, um colega de turma encontrava-se na chefia do SRPV-SP e que vieram lhe pedir para fazer alguns “testes” com o A-320 para operação em Congonhas. Após consultar especialistas da DEPV, o colega, por motivos de segurança, não autorizou a operação (não autorizou pelos mesmos motivos que não autorizaria um B-737 a operar num aeródromo como Carlos Prates ou Campo de Marte ou Jacarepaguá; os gráficos de performance da aeronave não eram compatíveis com o tamanho da pista), tão logo o colega passou o comando do serviço, porém, Congonhas foi homologado não somente para os A-320, mas para diversos outros equipamentos de porte até maior. Justificaria a escala desejada pelas companhias aéreas o estabelecimento de operações de transporte público no limite da segurança? Haveria uma só razão para que Congonhas se tornasse o principal centro de conexão do país?
Reconheça-se: por mínima que seja a probabilidade de algo acontecer, se é possível acontecer, com certeza, um dia, quaisquer que sejam as circunstancias, vai acontecer (primeira lei de Murphy). Parece, portanto, deveriam todos, autoridades e operadores, que considerar os riscos de todas e quaisquer operações que desejassem realizar em qualquer que fosse o aeródromo antes de autorizá-las e/ou implementá-las; haveria de certificarem-se de que são seguras, não apenas nas situações normais, mas efetivamente em todas as situações possíveis, o que, obviamente, inclui as emergências. Por que, afinal, dar-se chance à bruxa?
Todo fim de ano desnudam-se importantes mazelas do Sistema Aeronáutico Civil brasileiro: Falta planejamento. Falta definição de prioridades. Faltam projetos para a adequação oportuna da infra-estrutura aeroportuária. Falta, especialmente, uma efetiva fiscalização do cumprimento das normas e recomendações da OACI. E tardam as medidas necessárias ao fim da desordem.