Domingo é dia dos namorados. Quero compartilhar um texto, que há tempo, fiz para a mulher que ganhou meu coração e que, há trinta e tantos anos, convive comigo. Eramos dois, hoje somos onze!
Apaixonei-me muitas vezes. Quase sempre foi uma questão de pele. Buscava prazer no abandono de minhas sensações e emoções. Projetava minhas expectativas.
Certa vez me apaixonei por Afrodite. Apaixonei-me pela sensualidade e pela extroversão. Apaixonei-me por uma mulher viva, sempre muito à vontade com a sua sexualidade. Afrodite era carismática, segura de si, afetuosa, amiga, companheira e confidente, entretanto absolutamente infiel. Afrodite estimava demais sua liberdade para permanecer presa a um único amante.
De outra feita, apaixonei-me por Ártemis. Apaixonei-me pela feminilidade pura e primitiva. Apaixonei-me por uma mulher independente e vigorosa, que sabia o que queria. Ártemis lutava por seus objetivos e fazia suas escolhas sem precisar da aprovação alheia. Ela era uma mulher louca por fazer amor. A castidade, entretanto, era prioridade para ela.
Um dia apaixonei-me por Atena. Apaixonei-me pela intelectualidade e pela independência. Apaixonei-me por uma mulher inventiva, astuta, diligente e visionária, uma mulher que driblava a agressividade e a competitividade do mundo dos homens. Atena, entretanto, era egocêntrica, pouco afetiva; mais lógica do que emotiva, ela usava de estratégias e diplomacia para alcançar seus objetivos e raramente incluía neles pretendentes a amantes.
Então, apaixonei-me por Hera. Apaixonei-me pelo poder, pelo ciúme e pela vingança. Apaixonei-me por uma mulher autoritária e controladora, mas, ao mesmo tempo, muito leal. A despeito de ter muita confiança em si mesma e não lhe ser difícil afirmar-se independentemente de qualquer relação, Hera sentia-se incompleta e frustrada sem um companheiro, ela via o casamento como uma forma de obter segurança, prestígio e poder.
Mas me apaixonei, também, por Demeter. Apaixonei pela generosidade e pela solidariedade. Apaixonei-me por uma mulher que adorava cuidar física e emocionalmente dos outros. Motivada pelo mais poderoso dos instintos, apaixonei-me por uma mulher que divinizava o arquétipo da mãe; superprotetora tinha uma compulsão por ser tudo para os seus filhos, pelos quais era capaz de deixar de lado até suas mais prementes necessidades. Demeter tomava seu homem simplesmente por companheiro de viagem.
Com o tempo acabei apaixonando-me por Core. Apaixonei-me pela juventude e pela simpatia. Apaixonei-me por uma mulher passiva e dependente, mas que em seu entardecer, tendo enfrentado a escuridão do Tártaro, assumiu uma personalidade amadurecida. Estando tão apaixonado por Core, por Perséfone acabei apaixonando-me. Apaixonei-me por uma mulher segura e independente que, numa forte relação com o seu universo interior, aprendeu a aceitar experiências difíceis; todavia, nem sempre esta mulher revelava suas experiências.
Por Héstia, então, apaixonei- me. Apaixonei-me por um fogo que não sucumbia aos meus desejos. Por quente que fosse o coração apaixonado de Héstia ela mantinha, sempre, foco no centro. Héstia era fogo, mas somente em seu aspecto curativo. O fogo de Héstia encontrava-se bem além do limite de seu corpo. Héstia não se deixava seduzir, simplesmente curava e redimia.
Como vêem, apaixonei-me muitas vezes. A paixão satisfazia minhas necessidades e preenchia minhas expectativas e fantasias. Talvez, sem perceber, tenha me apaixonado por uma mesma mulher. De fato, somente quando logrei superar a paixão que provei do amor. Neste dia, indignada e enciumada, do alto do céu Afrodite esbravejou: _ Eu, a primeira alma da natureza, origem e germe de todos os elementos, eu que fecundo o universo inteiro devo partilhar com uma simples mortal as honras devidas à minha posição suprema? Deverá meu nome, que é consagrado no céu, ser profanado na terra? Terei de ver meus altares descuidados por causa de uma criatura destinada a morrer? Ora, de nada adiantaram os arroubos de Afrodite, uma vez que, tendo superado a paixão, tornei-me Eros, passei a amar Psique e, através deste meu amor, fiz-me capaz de gerar volúpia a deusa chamada prazer!