quinta-feira, 9 de junho de 2011

União dos opostos

Domingo é dia dos namorados. Quero compartilhar um texto, que há tempo, fiz para a mulher que ganhou meu coração e que, há trinta e tantos anos, convive comigo. Eramos dois, hoje somos onze!

Apaixonei-me muitas vezes. Quase sempre foi uma questão de pele. Buscava prazer no abandono de minhas sensações e emoções. Projetava minhas expectativas.

Certa vez me apaixonei por Afrodite. Apaixonei-me pela sensualidade e pela extroversão. Apaixonei-me por uma mulher viva, sempre muito à vontade com a sua sexualidade. Afrodite era carismática, segura de si, afetuosa, amiga, companheira e confidente, entretanto absolutamente infiel. Afrodite estimava demais sua liberdade para permanecer presa a um único amante.

De outra feita, apaixonei-me por Ártemis. Apaixonei-me pela feminilidade pura e primitiva. Apaixonei-me por uma mulher independente e vigorosa, que sabia o que queria. Ártemis lutava por seus objetivos e fazia suas escolhas sem precisar da aprovação alheia. Ela era uma mulher louca por fazer amor. A castidade, entretanto, era prioridade para ela.

Um dia apaixonei-me por Atena. Apaixonei-me pela intelectualidade e pela independência. Apaixonei-me por uma mulher inventiva, astuta, diligente e visionária, uma mulher que driblava a agressividade e a competitividade do mundo dos homens. Atena, entretanto, era egocêntrica, pouco afetiva; mais lógica do que emotiva, ela usava de estratégias e diplomacia para alcançar seus objetivos e raramente incluía neles pretendentes a amantes.

Então, apaixonei-me por Hera. Apaixonei-me pelo poder, pelo ciúme e pela vingança. Apaixonei-me por uma mulher autoritária e controladora, mas, ao mesmo tempo, muito leal. A despeito de ter muita confiança em si mesma e não lhe ser difícil afirmar-se independentemente de qualquer relação, Hera sentia-se incompleta e frustrada sem um companheiro, ela via o casamento como uma forma de obter segurança, prestígio e poder.

Mas me apaixonei, também, por Demeter. Apaixonei pela generosidade e pela solidariedade. Apaixonei-me por uma mulher que adorava cuidar física e emocionalmente dos outros. Motivada pelo mais poderoso dos instintos, apaixonei-me por uma mulher que divinizava o arquétipo da mãe; superprotetora tinha uma compulsão por ser tudo para os seus filhos, pelos quais era capaz de deixar de lado até suas mais prementes necessidades. Demeter tomava seu homem simplesmente por companheiro de viagem.

Com o tempo acabei apaixonando-me por Core. Apaixonei-me pela juventude e pela simpatia. Apaixonei-me por uma mulher passiva e dependente, mas que em seu entardecer, tendo enfrentado a escuridão do Tártaro, assumiu uma personalidade amadurecida. Estando tão apaixonado por Core, por Perséfone acabei apaixonando-me. Apaixonei-me por uma mulher segura e independente que, numa forte relação com o seu universo interior, aprendeu a aceitar experiências difíceis; todavia, nem sempre esta mulher revelava suas experiências.

Por Héstia, então, apaixonei- me. Apaixonei-me por um fogo que não sucumbia aos meus desejos. Por quente que fosse o coração apaixonado de Héstia ela mantinha, sempre, foco no centro. Héstia era fogo, mas somente em seu aspecto curativo. O fogo de Héstia encontrava-se bem além do limite de seu corpo. Héstia não se deixava seduzir, simplesmente curava e redimia.

Como vêem, apaixonei-me muitas vezes. A paixão satisfazia minhas necessidades e preenchia minhas expectativas e fantasias. Talvez, sem perceber, tenha me apaixonado por uma mesma mulher. De fato, somente quando logrei superar a paixão que provei do amor. Neste dia, indignada e enciumada, do alto do céu Afrodite esbravejou: _ Eu, a primeira alma da natureza, origem e germe de todos os elementos, eu que fecundo o universo inteiro devo partilhar com uma simples mortal as honras devidas à minha posição suprema? Deverá meu nome, que é consagrado no céu, ser profanado na terra? Terei de ver meus altares descuidados por causa de uma criatura destinada a morrer? Ora, de nada adiantaram os arroubos de Afrodite, uma vez que, tendo superado a paixão, tornei-me Eros, passei a amar Psique e, através deste meu amor, fiz-me capaz de gerar volúpia a deusa chamada prazer!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lógicas dos sistemas de automação de aeronaves postas em xeque

O relatório divulgado na sexta-feira passada pelo BEA põe em xeque a lógica dos sistemas de automação das aeronaves de grande porte atualmente  em operação no transporte aéreo. O fato de a tripulação do vôo 447, acidentado em 31 de maio de 2009 durante o trajeto Rio-Paris, não ter conseguido reverter as “supostas” falhas em seu sistema de automação introduz um importante dilema quanto aos limites da automação impostos pela indústria aeronáutica. Que papel está previsto nos projetos para os pilotos em aeronaves de grande porte?

Supostamente (ainda não há um relatório final sobre o acidente), a queda do vôo 447 no Atlântico demonstra que os pilotos ficaram reféns das medições no console de comando e não conseguiram reverter a situação, que resultou na morte de 228 pessoas. A cronologia entre os parâmetros do FDR _ Flight Data Recorder e do CVR _ Cockpit Voice Recorder (as caixas pretas da aeronave) induz acreditar numa desorientação dos pilotos da aeronave devido a erro em instrumentos como velocímetro, indicador de atitude, VSI, piloto automático, sistema automático de auto-propulsão, etc.

A Airbus enfrenta sérios questionamentos quanto a sua engenharia, em especial sobre a lógica de automação de suas aeronaves. Há importantes dúvidas sobre o sistema “fly by wire”, que equipa os modelos Airbus A320, A330, A340 e A380, principalmente quanto a possibilidade de os pilotos serem capazes de, numa emergência, assumirem o controle da aeronave, de fato. O sistema de automação dessas aeronaves não permite que o comando da aeronave seja exercido diretamente pelos controles dos pilotos, mas, somente, pelo computador da aeronave que calcula o que é necessário para cada situação, segundo parâmetros previamente definidos pela Airbus. A justificativa para a adoção do sistema é uma redução considerável no tempo e nos custos de treinamentos de pilotos e tripulação.

Aeronaves protegidas pelo sistema Airbus fly by wire tornam desnecessário um treinamento específico para a tripulação, afirmava, em 1998, o então vice-presidente da Airbus, Pierre Baud. Ora, qualquer piloto precisa de treinamento específico e isso não é segredo de Estado. Após o acidente do vôo 447, um relatório de cinco experts independentes, contratados pelo Tribunal de Grande Instância de Paris, destacou o corolário. De fato, como, sem treinamento específico, poderiam pilotos de quaisquer que fossem as aeronaves, enfrentarem um defeito, quaisquer que fossem, como os prováveis defeitos ocorridos nos sensores de velocidade do A 330 que realizava o vôo 447, que, como se supõe, ocorreu? Na verdade, não é a tecnologia fly by wire que está em questão, mas a arquitetura utilizada em suas lógicas, que levam a aeronave a se encontrar muito menos nas mãos dos pilotos por conta de uma auto-proteção introduzida pelos sistemas, que filtram as ordens dos pilotos.

Há de se perguntar: Como uma aeronave em situação de vôo pode, em determinadas circunstâncias, colocar-se em situação irrecuperável? Como uma aeronave pôde ter sido certificada, se esta possibilidade é real? Foram feitos todos os testes de perda de sustentação? Parece, o acidente do vôo 447 levará a Airbus a ter de esclarecer tudo isso.